quinta-feira, 29 de maio de 2014

Fernanda de Castro na Semana de Arte Moderna de São Paulo


"Resignada mas inquieta - qual inquieta, aterrada! -, lá organizei os programas, lá aprendi penosamente os poemas e no dia previsto lá entrei no palco como o touro entra na arena ou o cordeiro na ara do sacrifício.
(Além de tudo, naquele tempo, não havia microfones e o teatro era enorme e estava à cunha!) Calculem, pois, a minha profunda surpresa ao chegar ao fim do recital sem desastre de maior e até com certo êxito talvez (talvez, não!, com certeza!) por ter então vinte anos e um vestido verde que me ficava bem. A propósito deste mesmo vestido verde lembro-me que de que a Tarsíla do Amaral e Anita Malfatti, as duas maiores pintoras do Brasil, me pediram para fazer o meu retrato com o dito vestido. Posei para as duas ao mesmo tempo e ainda há poucos anos me disseram que os dois retratos tinham sido expostos em São Paulo, numa retrospectiva da pintura brasileira, dos anos vinte e trinta. (....) 
Aquela revolução literária em que a gente nova das letras e das artes, de sangue na guelra, a golpes de panfletos, de discursos, de artigos nos jornais, deu um golpe de morte nos conformistas, nos académicos, nos botas-de-elástico, inesquecível semana em que convivemos diariamente com alguns daqueles que, mais tarde, foram os grandes do Brasil: Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Monteiro Lobato,  Menotti del Picchia, José Lins do Rego, Guilherme de Almeida, Paulo Prado e outros de que me lembro menos bem. (...)
Lembrei-me agora, ao copiar estas linhas, de um pequeno episódio cómico que ia acabando muito mal. Estávamos instalados na Rotisserie Sportsman, o melhor hotel de São Paulo nessa época, e todos os nossos amigos iam buscar-nos para um jantar, um passeio, uma visita, uma sessão de cinema. Nessa noite éramos todos convidados de D.Olívia Penteado. (...) Segal, Tarsila, Anita Malfatti, Sergio Milliet, Plínio Salgado, etc., reuniam-se em tremendos conciliábulos e conspiravam continuamente contra todos os burgueses, contra todos os éteceteras da vida, como lhes chamou o António (...). Vesti, pois, o melhor vestido que tinha, de marrocain preto (ainda não o esqueci, como havia de esquecê-lo?) e lá fomos todos até à encruzilhada onde devíamos esperar o bonde.
De repente, já bastante longe do hotel, começou a chover torrencialmente, e à medida que ia chovendo, chovendo, pingos tão grossos que cada um chegaria para matar a sede a um pássaro, o meu vestido ia encolhendo, encolhendo, de tal modo que os meus amigos começaram a rir como doidos, sem me poderem sequer dizer porquê. (...) O meu vestido já não podia encolher mais. (...) Deu-se então uma coisa absurda: o nosso táxi, que estava parado sobre os rails do bonde, foi apanhado por este, que não pôde parar a tempo, e atirado de pernas para o ar, para o lamaçal em que se tornara a estrada de terra batida. Desta vez todos se assustaram, tiraram-me do táxi num estado lastimoso (...). E aqui está como me apresentei pela primeira vez em casa da mulher mais rica e mais elegante de São Paulo, cheia de lama, despenteada, com o resto do vestido pelos joelhos e as meias rotas.
Escusado será dizer que fui recebida triunfalmente e proclamada a Rainha da Semana de Arte Moderna de São Paulo. (...)"

Fernanda de Castro
Ao Fim da Memória, vol. I

Une bombe à tout casser

Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Yvette Farkou, Fernand Lèger e Constantin Brancusi

"A propósito de Paris, lembro-me de que estive lá a primeira vez, já casada, com 23 anos, se não me engano, a convite dos nossos grandes amigos brasileiros Oswald de Andrade e sua mulher, Tarsila do Amaral, que conheceramos em São Paulo no ano anterior. (...) Ela e Oswald viviam uma vida de simpática boémia, de alegre camaradagem com artistas e escritores, sobretudo com músicos, pouco ou nada conhecidos ainda, mas que depressa iriam afirmar os seus nomes. O pequeno e heterogenio grupo a que logo nos associámos era assim constituído: Oswald e Tarsíla, Honegger, Erick Satie, Poulenc, Picabia, Paul Poiret, o intelectual da moda, o António e eu.
Como ele próprio nos disse, Oswald tivera uma pequena herança no Brasil, que no seu entender não chegava para nada a sério, resolvendo por isso gastá-la com Tarsila e os amigos, fazendo enquanto durasse «une bombe à tout casser» (sic).
Todos os dias, às 8 horas, nos encontrávamos em qualquer restaurante ou em qualquer «bistro», e cada um pagava o seu jantar. Depois era tudo por conta do Oswald, que metodicamente organizava os seus programas. (...)
Eu, que nessa altura gostava de me deitar cedo, começava, por volta da uma, a cabecear com sono, até que um dia Oswald se voltou para mim, furioso:
- Gasta a gente um dinheirão com esta mulher e o que ela quer, o que lhe dava mesmo gosto, era ir para a cama, para a caminha, com a chucha e o biberon!
Riram todos e eu mais do que ninguém porque era rigorosamente verdade: biberon e chucha à parte, o que na realide queria, à noite, era deitar-me para saborear Paris, não o Paris nocturno que nunca me interessou muito, mas o Paris diurno que eu andava a soletrar, a decorar pedra a pedra, bairro a bairro, o Paris das Tuileries e de Notre-Dame, do Sacré Coeur e do Bois de Boulogne, da Place Vendôme, do Palais Royal e do Quartier Latin, do Sena, das suas pontes e das suas péniches. (...)"

Fernanda de Castro
Ao Fim da Memória vol. I

Minimáximas para uma amiga impaciente

1) Quanto maior é a sede melhor é a água.
2) A crisálida dorme no casulo, mas um dia a borboleta voa.
3) Se queres uma boa fornada, deixa levedar bem o teu pão.
4) Segura o leme com força: um barco à deriva raramente chega a bom porto.
5) Não há rosa sem espinho, mas não há espinho sem rosa.
6) O Inverno mais rigoroso não impede que as árvores na Primavera se cubram de folhas.
7) A vida é música; e um dos acidentes da música é a pausa.
8) Quando a vida parece morta, está apenas adormecida. Deixa-a descansar: a vida também tem direito à Vida.

Fernanda de Castro
Ao Fim da Memória vol. I

Doido, completamente doido


"Fernanda de Castro registou nas suas memórias a viagem ao Brasil em 1922, onde por sinal casou, apadrinhados por Gago Coutinho, com António Ferro por então mobilizado na apresentação da sua peça teatral “Mar Alto”, que correu em São Paulo e no Rio – e haveria de criar burburinho em Lisboa, no ano seguinte –, e em conferências. Além da já referida, também “A Idade do Jazz-band”, lidas ambas em digressão triunfal pelo Brasil, com acolhimento de Oswald de Andrade, que Fernanda de Castro (igualmente colaboradora da Contemporânea) diria ser doido, completamente doido, apesar de tudo, diferente do seu marido que considerava, apenas, atrevido e ousado. (...)"

Luís Bigotte Chorão 
no blogue Malomil, aqui

sábado, 5 de abril de 2014

Fernanda de Castro, Vitorino Nemésio, David Mourão-Ferreira, entre outros


Jantar de homenagem a Natália Correia (1969) no restaurante «A Quinta». Discursaram Vitorino Nemésio, David Mourão Ferreira, Natália Correia, José Carlos Ary dos Santos, Hernâni Cidade, Luís Oliveira Guimarães, Fernanda de Castro, entre outros.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Bloco 65 (1965)


O monstro de cimento
não saberá jamais
que há pensamento,
sofrimento,
e muitas coisas mais.

A velha actriz, à janela,
procura no céu a estrela
que imagina ser a dela.

(...)

Fernanda de Castro

segunda-feira, 31 de março de 2014

O POÇO

Ilustração de Luís Manuel Gaspar para o poema «Poço» de Fernanda de Castro
'prelo', 3.ª série, n.º 2, lisboa, incm, maio-ago. 2006

Velho poço de água velha,
que não reflecte nem espelha luz de olhar,
brilho de estrela. 


Toalha verde e amarela
de folhas apodrecidas,
avencas, líquenes, fetos,
sob os quais pulula a Vida
em mim vida repartida:
bactérias, larvas, insectos. 


Paredes viscosas, tortas,
paredes já sem idade
que segregam humidade
e cheiram a coisas mortas.

Vida e Morte confundidas. 

Não há barreiras nem fosso,
nem fronteiras definidas
nas águas turvas do poço.


Fernanda de Castro

sábado, 29 de março de 2014

terça-feira, 11 de março de 2014

Assunto arrumado

"A biografia de Fernanda de Castro (1900-1994) pesa hoje, ainda, sobre a sua obra poética, impedindo uma análise despida das leituras políticas que a biografia implica.Terá que ser a geração agora nos 30 anos, ou mais nova, para quem as contas do Estado Novo sejam assunto arrumado em livros de biblioteca, a fazer a leitura desta poesia, no seu valor literário. (...)"

Carlos Mendonça Lopes
sobre Fernanda de Castro no blogue vicío da poesia
Continue a ler aqui.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Que mania da lógica

"Hoje, quando acordei, ainda era escuro, tinha o quarto cheio de frésias e de lilases. A metade de mim já acordada pensou: «Frésias e lilases no Inverno? Impossível!» A outra metade retorquiu. «Que mania da lógica! O que tem importância é que cheirem bem!."

Fernanda de Castro
Ao Fim da Memória vol. II

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Pobre como S. Francisco


"Pobre como S. Francisco de Assis, fugia dos homens e amava os animais e as coisas - as noites estreladas e os grandes ventos do Norte, as fontes de Roma, as ruas de Paris e os jardins de Espanha. Solitário, para que o barulho ensurdecedor da voz humana o não impedisse de ouvir os maravilhosos silêncios da Natureza, o Poeta do «indizível», do «inexprimível», percorreu todos os caminhos da Europa e do Norte de Africa, - sem pátria, sem família, sem profissão (...)"

Fernanda de Castro 
Introdução a Cartas a um Poeta, de Rainer Maria Rilke
 Portugália (s.d)

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Maria


Coisas declamadas

Não te vejo de azul, Virgem Maria,
Hirta no andor, com vestes de cetim,
Cabelos de oiro, olhar de alegoria...
Perdão, Senhora, não te vejo assim

Não te vejo no altar, parada e fria,
Entre eflúvios de incenso e de jasmim
E aos pés anjinhos de oleografia....
Não és, Senhora, nunca foste assim

Não te vejo entre nuvens cor-de-rosa
Vejo-te, sim, humana e dolorosa,
Na terra, entre os mortais, os pecadores,

Pés em chaga na poeira dos caminhos,
Sangrando em cada dedo um anel de espinhos
E em cada passo a dor das sete dores.

Fernanda de Castro 

domingo, 25 de agosto de 2013

Senhor

Senhor,
Pouco resta no mundo que mereça
O vosso olhar.
A Humanidade, sem graça, é triste…
Pombas de asas cortadas, rosas murchas,
Povoam vosso altar!

Senhor,
Pouco resta no mundo que mereça
A vossa graça.
Nas cearas do Céu alastra o joio,
A colheita do amor é pobre e escassa.

Senhor,
Algo porém, no mundo ainda merece
A cruz e a palma
Da vossa glória… As almas das crianças
Açucenas do Céu, ainda são almas,
Alma que é mais dos anjos que dos homens,
Alma que sabe a flor, a fonte a pão
E a Vós sobe, puríssima e radiosa
Nesta manhã de Primeira Comunhão.



Fernanda de Castro

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Antologia Portuguesa e Brasileira

Antologia organizada por Evaristo Pontes dos Santes
1974 
Autores: Gonçalves Dias, Tomás Ribeiro; Afonso Celso, Alberto de Oliveira, Antônio Carlos, Artur Azevedo, Augusto de Lima, Bernardino Lopes, Carmen Cinira, Castro Alves, Catulo da Paixão Cearense, Cruz e Sousa, Da Costa e Silva, Gonçalves Crespo, Gregório de Matos, Hermes Fontes, Iracema Nunes de Andrade, Jorge de Lima, Laurindo Rabelo, Lisette Villar de Lucena Tacla, Machado de Assis, Manuel Bandeira, Manuel Botelho de Oliveira, Olavo Bilac, Olegário Mariano, D. Pedro II, Raimundo Corrêa, Raul de Leoni, Rita de Lara, Rui Barbosa; Afonso Lopes Vieira, Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Antero de Quental, António Correia de Oliveira, António Nobre, António Sardinha, Padre António Vieira, Augusto Gil, Manuel Maria Barbosa du Bocage, Luís de Camões, Cândido Guerreiro, Fernanda de Castro, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, D. Francisco Manuel de Melo, Guerra Junqueiro, João de Deus, José da Silva Dinis, José Duro, Júlio Dantas, Ramiro Guedes de Campos, Anónimo.   

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

pingue-pingue


(Estarei morta?
Como um velho boneco
com a corda partida,
um dia irei da vida
numa caixa comprida).
Mas se estou morta
deveria calar-se
o pingo da torneira,
ou terei de o ouvir
a morte inteira?
(Será isto o inferno,
uma torneira,
pingue-pingue,
a morte inteira?)

Fernanda de Castro

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Não queiras a piedade de ninguém

"Não queiras a piedade de ninguém.
Faze do teu orgulho uma couraça.
A piedade é uma forma de desdém.
Nunca peças esmolas a quem passa.

 Mostra, em silêncio, que tens nervo, raça,
e espera. Atrás do tempo, tempo vem.
 E se a ventura for rebelde ou escassa,
que seja o orgulho o teu supremo bem."

Fernanda de Castro

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

«O Ás dos Caçadores» por Fernanda de Castro


Ilustração de Sarah Affonso

"Uma sala. Móveis simples. Um piano. Cadeiras. Quando sobe o pano o Caçador está sentado numa poltrona e, à sua volta, agrupam-se as Meninas. O invejoso escuta com  um ar incrédulo. As Meninas ouvem, de boca aberta, as proezas do Caçador. (...) "

Fernanda de Castro
Boletim Cultural (Fundação Calouste Gulbenkian)
VII Série, Junho de 1992, disponível aqui.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Rosetas, flores, cetim verde, ponto-cruz...

"Então, de repente, compreendi que é isso mesmo que eu quero: recriar à minha volta uma atmosfera «que já não se usa». Por isso, as minhas rosetas de croché, as flores de seda ou de cambraia que aprendi a fazer com a minha bisavó de quase noventa anos, quando eu tinha pouco mais de dez; por isso, os saquinhos de alfazema nas gavetas e as castanhas-da-índia nas algibeiras dos casacos, por causa das traças; por isso as minhas cadeiras Luís XVI com fundos e costas de cetim verde, bordados por mim a ponto-de-cruz; por isso, os boiões de porcelana antiga cheios de raminhos de lúcia-lima e de pétalas secas de rosas vermelhas que, quando os boiões se destapam, espalham um delicioso perfume na sala; por isso, finalmente, o chá de limão e as papas de linhaça, remédios que fazem talvez bem ao corpo, mas que fazem com certeza bem à alma porque exigem cuidados, paciência, atenção, remédios caseiros que a falta de tempo, o grande papão, vai inexoravelmente fazendo cair em desuso."

Fernanda de Castro
Ao Fim da Memória I

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Fernando Assis Pacheco sobre Fernanda de Castro


"Imobilizada pela doença, Fernanda de Castro cultiva em alto grau a arte de conviver, desfiando histórias atrás de histórias que são uma imagem vivida do século. O pai ensinou-lhe a fazer nós de marinheiro, mas a Maria Rapaz, desengonçada e senhora do seu nariz, acabou por casar (com António Ferro que teve nas mãos o Marketing do antigo regime) e correr o mundo, fulminando legiões de admiradores - Pessoa entre eles, ao que se diz - com uns olhos belíssimos e uma verve inigualável. (...)"

Suplemento de "O Jornal", nº. 683
(1988)

sábado, 12 de maio de 2012

"15 Portugueses Ilustres" de Paulo Marques


Uma viagem ao longo de todo o século XX que aborda a vida de quinze grandes personalidades portuguesas e as suas importantes contribuições em áreas como a Literatura, a Educação, a Cultura, a Arte e a Política.

"15 Portugueses Ilustres" de Paulo Marques: Amália Rodrigues, Miguel Torga, Maria Lamas, Sidónio Pais, Fernanda de Castro, António Botto, D. Amélia de Orleães, Francisco Sá Carneiro, Maria de Lourdes Pintasilgo, Tomás Alcaide, Elina Guimarães, José Régio, Maria Matos, Irene Lisboa e Álvaro Cunhal.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A Vida Maravilhosa das Plantas


Fernanda de Castro publica A Vida Maravilhosa das Plantas em 1964, com capa e ilustrações de Inês Guerreiro, numa pequena edição de autor. O rigor científico deste estudo é acompanhado pela sensibilidade poética com que a escritora descreve e analisa as plantas, as árvores, as folhas, os frutos, as sementes, os caules e até os insectos, com o ser-humano no horizonte. O maravilhoso mundo dos seres vivos que acompanha toda a sua produção poética, surge aqui em forma de ensaio revelando o profundo conhecimento de Fernanda de Castro sobre o reino vegetal, mundo que intuía como ninguém:

“(…) À primeira vista, a imobilidade da Planta parece dever condenar ao fracasso todos os seus esforços, todas as suas tentativas, mas a sua imaginação é fértil e são inúmeros os estratagemas de que se serve para alcançar o seu quinhão de luz: plantas que nascem rasteiras elevam-se à força de gavinhas, de acúleos, de raízes adventícias, de espinhos e até de pêlos, como o Lúpulo que (…) consegue rodar sobre si mesmo, dando uma volta completa ao caule.”

Fernanda de Castro
Em A Vida Maravilhosa das Plantas, Edição de Autor (1964)

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Memórias de José Almeida Araújo


"Desde o meu regresso da Suécia que Jean Cocteau e Marcel Pagnol, dois futuros "imortais" - designação respeitosa não isenta de ironia dispensada aos membros da Académie Française - me tinham oferecido conselho. (...) São encontros que fiquei a dever às recomendações amigas de António Ferro e Fernanda de Castro. (...) Fui sempre bem recebido no grande apartamento da Calçada dos Caetanos, hoje rua João Pereira da Rosa. Infelizmente, nem sempre foram reconhecidos por tantos que tanto ajudaram. A ingratidão, a par com a ausência de dignidade e coragem, moral e física, sempre foram e continuam a ser postura dos que, há mais de trinta anos, apelidei no semanário Expresso de "amnésicos de cravo ao peito".

José Almeida Araújo
A vida aos pedaços - Memórias
Edição de Autor (2012), pp. 57-59.

Ó Árvore


I
Ó arvore, alguém pensou
Na tua imensa alegria
Quando enfim rompeste a crosta
E alcançaste a luz do dia?

II
Manhã cedo, na mata,
respira-se mais fundo.
Tudo é puro, auroral, duma inocência
de princípio do mundo.
De ti mesma cativa,
sem pressas, folha a folha, vais crescendo
com uma falsa indolência

Árvore, como invejo
a tua paciência!

III
Lentamente, cresceste,
eras frágil, pequena,
como um pé de violeta.
Vergavas sob o peso duma abelha
ou duma borboleta.

Depois, cresceste
a muito custo,
o pé de violeta
transformou-se em arbusto.

Então, ano após ano,
o arbusto fez-se árvore, tão forte
que nem o vento lhe faz dano.

Agora, desse tempo, nada resta:
o é de violeta
é um deus da floresta.

IV
Árvore, alguém te perguntou:
És feliz, infeliz,
Imóvel presa ao chão
Pela raiz?

V
Árvore,
eu sinto em mim o teu sofrimento,
sempre que o vento, à doida, à toa,
te fere, te magoa,
eu tenho calafrios, pesadelos,
como se o vento em vez de sacudir-te
e de arrancar-te as folhas,
me arrancasse os cabelos.

VI
Quando à noite abro as janelas
não é só por ter calor
ou para ver as estrelas:
é mais para respirar
e para dormir melhor,
porque sei que as tuas folhas,
exalam de noite o ar
que me alivia a fadiga
e que me lava os pulmões,
ó árvore minha amiga.

VII
Pássaros, vossa vida que seria
sem o doce aconchego das ramagens
onde escondeis as asas e as plumagens,
quando anoitece, à espera de outro dia?

Quando se cala a vossa melodia
e regressais, exaustos de viagens,
de voos sem destino, de miragens,
de amorosa, secreta fantasia,

voltais à paz do ninho, às vossas casas
onde cabem, exactas, vossas asas
e os filhos que de vós hão-de nascer.

Ó árvores da mata, da floresta,
o chilreio das aves é uma festa
que só a vida pode agradecer.

VIII
Árvore,
alguém ouviu o teu lamento
quando o vento,
esse cavalo doido à desfilada,
deixa a sua pégada
em cada flor, cada rebento,
cada frágil ramada?

IX
Se acaso estás cansado,
se uma pena, um cuidado,
uma onda de tédio
te dão a sensação
de que tudo na vida é sem remédio,
vai procurar a sombra duma árvore,
olha as folhas, os ramos, os botões,
enche de ar os pulmões
e saberás, então,
que essa árvore estava à tua espera,
só para te dizer:
"Queiras ou não,
Amigo, é Primavera!"

X
E tudo o mais que as árvores nos dão
na dádiva telúrica e total
duma vida que à vida se destina,
desde a flor e dos frutos à resina,
desde a resina à casca estaladiça
da cortiça,
da cortiça arrancada
à árvore passiva,
à árvore submissa,
deixando-a sangrar, em carne viva.

E tudo o mais que as árvores nos dão:
frutos de inverno, frutos de verão,
ó árvores das matas e das quintas,
para as bocas sedentas,
para as bocas famintas.

E onde vamos buscar as nossas brasas,
o lume das lareiras, o calor,
e as madeiras das casas,
das vigas ao sobrado?
Acaso não será à tua dor
à dor do tronco retalhado
a golpes de machado?

XI
E não esqueçam, por favor,
essas árvores de flor,
que são só para enfeitas,
com seu jeito, sua graça,
cada rua, cada praça;
que são só para alegrar
as vidas sem horizontes,
como se fossem as fontes,
duma tímida esperança;
que são só para enxugar
o choro duma criança
ou lágrimas de mulher,
duma pessoa qualquer;
que são só para evitar
um gesto desesperado
na Cidade indiferente,
quando sofre, lado a lado,
muita gente, tanta gente:
que são só para abrigar,
quando, à sombra dos seus ramos,
se trocam beijos de amor;
que só servem para pôr
alegria na tristeza
e pouco mais... para dar
uma gota de beleza
a quem por elas passar...

essas árvores de flor
que são só para enfeitar.

XII
Se vires uma árvore,
e se fores comigo,
faz, Irmão, o que eu faço:
pára e dá-lhe um abraço,
não tens melhor amigo.

Fernanda de Castro
em E eu saudosa, saudosa...
(1973)

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Quem pudera, Cecília!


Tenho fome de campo e de verdura,
De terra bem lavrada,
E sede, muita sede de água pura.


Quero pegar no cabo de uma enxada,
Quero cheirar os troncos e as raízes,
Pisar, descalça, a terra ainda molhada,
Ver, nas noites, o rasto das perdizes.


Já Cecília Meireles o dizia,
Com imenso carinho:
“Portugal não tem campo, tem campinho.”
E ria, ria,
Rasgando as mãos nas silvas,
Comendo amoras, colhendo malmequeres, madressilvas.


Tinhas razão, Cecília.
Em Portugal, as estações são festas,
São festas de família,
Enfiadas, colares de alegrias;
Na Primavera as flores;
Os frutos no Verão, e as romarias;
No Outono o vinho novo e o ritual
Profano das vindimas;
No Inverno,
A mística alegria do Natal,
As portas bem fechadas,
A lenha a crepitar
E as rabanadas.


Quem pudera, Cecília, quem pudera,
Mandar-te para lá, para onde estás,
Um raminho da nossa Primavera.

Fernanda de Castro

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Gabriela Mistral


"Não há na poesia francesa de hoje nenhuma poetisa com o seu vigor."



Gabriela Mistral
(Prémio Nobel da Literatura, 1945) 
sobre Fernanda de Castro

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Rua João Pereira da Rosa, n.º 6 (1958)


Descerramento da lápide de António Ferro no prédio onde viveu com a sua mulher, Fernanda de Castro.
11 Nov. 1958. Fotografia de Armando Serôdio. (Lisboa, Arq. Fotográfico da CML, A27768)

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No mesmo prédio também viveram: Oliveira Martins e sua mulher; Ramalho Ortigão; José Gomes Ferreira e sua mulher; Bernardo Marques e Ofélia Marques.

Esquecido, censurado, ou achado detestável


"Com uma carta amabilíssima, recebo um convite para me deslocar à inauguração de uma exposição sob o signo de Portugal Século XX, 50 Rostos para uma Identidade.
Pregam-me nas ventas a franginha da Beatriz Costa, afamada vedeta por chupar no burrié e outras marotices que fizeram época. Não fui estranho à iniciativa. Tiveram a gentileza de me chamar para um texto sobre Almada Negreiros, onde e não por acaso meti o António Ferro e as duas extraordinárias Senhoras que, ao lado de um e de outro, Sarah Afonso e Fernanda de Castro, decerto muito contribuíram para a grandeza da obra deles. Ora, e durante semanas temi tal disparate, o nome de António Ferro foi esquecido. Ou censurado. Ou achado detestável. Entre Dezembro de 1995 e Fevereiro de 1997, semana a semana, fui-me perguntando: será que vão esquecer este? aquele?
Mais escandalosa que a de Ferro e ainda mais inexplicável, é a ausência de Duarte Pacheco, tanto o Ministro das Obras Públicas como o Presidente do município lisboeta. Pensem o que quiserem, não me reconheço nessa pretensa identidade. E se os tais 50 rostos, nas espantadas serigráficas trombas que o Leonel Moura arranjou, eram escassos, porque não 59, 70? "

Luiz Pacheco
"Um homem dividido", em PRAZO DE VALIDADE, Contraponto, 1998.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Fernanda de Castro e Florbela Espanca

Florbela Espanca

"Hoje, numa reunião de amigos, falou-se muito de Florbela Espanca a propósito das suas obras póstumas, e, de repente, sem saber como, vi, reparei que era o alvo de todas as atenções. Porquê? Porque se lembraram de uma coisa que lhes tinha contado há tempos, que impressionou toda a gente e que me atormentou a mim vários anos.
Disse-me alguém da minha confiança, creio que a Teresa Leitão de Barros, que a Florbela, nas vésperas da sua morte, passara o dia à minha procura: telefonou duas vezes para minha casa, e falou para a Bertrand e para a Portugália, onde eu ia muitas vezes à tarde. Por um acaso triste, nunca me encontrou, e, em toda a parte, o recado que deixava era o mesmo:
Digam à Fernanda de Castro que tenho a maior urgência em falar-lhe.
Quando finalmente recebi o recado, fiquei perplexa, porque as nossas relações eram meramente sociais, não havendo entre nós a menor intimidade. Calculem pois como eu fiquei ao ter, dois dias mais tarde, a notícia da sua morte. Angustiada, conversei com a Teresa a esse respeito, e ela, que a conhecia muito melhor do que eu, também estava extremamente admirada, pois não fazia a menor ideia do que a Florbela pretendia de mim. É certo que tínhamos estado juntas uma semana antes, num «chá» em casa da Maria Amélia Teixeira, directora do Portugal Feminino; a nossa conversa tinha sido amigável, mas completamente banal. O José Leitão de Barros, posto ao corrente pela irmã, disse com o seu ar despachado e um pouco trocista:
– Não sabem do que se trata? Pois sei eu! Ciumeira... ciumeira por causa do Américo Durão. Ela gosta dele e está convencida de que ele não lhe liga porque de quem ele gosta é da Fernanda.
Caí das nuvens. É certo que, como já disse, o Américo me tinha um dia escrito uma carta com estas dizeres: «Quer casar comigo?» Ao que eu respondi, não menos laconicamente: «A que propósito?...»
Depois disto, juro que nunca mais me disse uma palavra a este respeito, que nada na sua atitude poderia levar-me a pensar que as nossas relações não fossem perfeitamente amigáveis, poderia até dizer, fraternais. Imaginem pois o meu espanto quando há dias me disseram que, em certo livro, que não li, a Florbela dizia, numa carta dirigida ao Américo Durão, qualquer coisa neste género: «Eu bem sei que você não gosta de mim porque gosta da F. C. Além disso, também me disseram que gosta muito mais dos versos dela do que dos meus!»
Continuei perplexa, mas, desgraçadamente, a Florbela já tinha morrido e só em pensamento, pensamento muito forte, pude desfazer o engano, dizer-lhe, sem palavras, quanto me penalizava o terrível equívoco. (...)
A alma de Florbela, torturada, insatisfeita, persegue-me como o perfume de certas flores murchas, esquecidas entre as folhas dum livro.
Mal a conheci em vida e agora, depois de morta, Florbela anda comigo, acompanha-me, conta-me do outro mundo uma longa história triste que eu procuro reconstituir palavra a palavra, verso a verso, ia quase a dizer pétala a pétala.
Porque morreu Florbela? Porque nasceu triste? Porque não soube ou não pôde contentar-se com a vida? Onde a raiz da sua estranha angústia?
(...) Suponho que obedeceu à tentação do infinito. Florbela morreu porque não soube pôr de acordo o seu corpo, o seu espírito e a sua alma. Florbela era feita de três magníficas peças que nunca acertaram. Chamava-se Florbela – e tinha versos geniais; nasceu e morreu na província – e nenhuma fronteira detinha as suas asas; tinha uns olhos castanhos banais – e um olhar estranho, extremamente doloroso; não soube viver sem quebrar algumas correntes, algemas, preconceitos, mas não teve coragem bastante para os quebrar a todos.
Parece-me adivinhá-la... De quando em quando um assomo de vontade, um desejo de paz, uma ânsia de calma, de renúncia: não mais desejos, não mais ambições, não mais sonhos impossíveis... A vida normalizada, banalizada, horas certas para comer, para dormir, para sonhar, para fazer versos, para ser feliz, para ser infeliz..."

Fernanda de Castro
Ao Fim da Memória II

segunda-feira, 26 de março de 2012

Distância

Distância

Não vás para tão longe!
Vem sentar-te
Aqui na chaise-longue, ao pé de mim...
Tenho o desejo doido de contar-te
Estas saudades que não tinham fim.


Não vás para tão longe;
Quero ver
Se ainda sabes olhar-me como d'antes,
E se nas tuas mãos acariciantes,
Inda existe o perfume de que eu gosto.


Não vás para tão longe!
Tenho medo
Do silêncio pesado d'esta sala...
Como soluça o vento no arvoredo!
E a tua voz, amor, como se cala!


Não vás para tão longe!
Antigamente,
Era sempre demais o curto espaço
Que havia entre nós dois...
Agora, um embaraço,
Hesitas e depois,
Com um gesto de tédio e de cansaço,
Achas inconveniente
O meu abraço.


Não vás para tão longe!
Fica. Inda é tão cedo!
O vento continua a fustigar
Os ramos sofredores do arvoredo,
E eu ponho-me a pensar
E tenho medo!


Não vás para tão longe!
Na sombra impenetrada,
Como se agita e se debate o vento!...
Paira nas velhas ruínas do convento


Que além se avista,
A alma melancólica d'um monge
Que a vida arremessou àquela crista...


Céu apagado, negro, pessimista,
E tu sempre mais longe!...

Fernanda de Castro

quarta-feira, 14 de março de 2012

A Velha

A Velha tinha uma saia
de remendos de vida remendada
e um lenço branco de cabelos brancos
na cabeça cansada.

A Velha tinha uma cara
de fomes e de penas amassada,
e um corpo todo aos nós de árvore seca,
de planta mal regada.

A Velha tinha um olhar
de estrela morta, de luz apagada,
e duas mãos de terra por lavrar,
de cortiça queimada.

A Velha tinha uma voz
de fio de água, de fonte calada,
e uma boca sem dentes e sem lábios,
de estátua mutilada.

A Velha tinha uma alma
de farrapos de vida alinhavada.
A Velha tinha uma alma
e não tinha mais nada.


Fernanda de Castro