segunda-feira, 21 de julho de 2014
Festa redonda
A Fernanda de Castro
e António Ferro
à sua partida para Berna - esta lembrança
do seu velho camarada
Vitorino Nemésio
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António Ferro,
Vitorino Nemésio
terça-feira, 24 de junho de 2014
Bruno e Sílvia
- Tens medo? - perguntou Bruno.
Sílvia fechou os olhos e murmurou, à beira das lágrimas:
- Não.
- Queres?
Tinha chegado o momento. Que lhe dissera um dia o velho senhor? Ah, sim: «A vida é um jogo franco, ganha quem merece ganhar. E só merece ganhar quem se arrisca, quem fecha os olhos e mergulha.»
- Queres? - insistiu Bruno.
- Quero.
O resto foi rápido. Bruno ajudou Sílvia a entrar no barco, pegou nos remos, afastou-se da margem, remando para o sítio mais fundo, onde as flores dos golfões pareciam estrelas brancas a boiar.
Sílvia fechou os olhos e murmurou, à beira das lágrimas:
- Não.
- Queres?
Tinha chegado o momento. Que lhe dissera um dia o velho senhor? Ah, sim: «A vida é um jogo franco, ganha quem merece ganhar. E só merece ganhar quem se arrisca, quem fecha os olhos e mergulha.»
- Queres? - insistiu Bruno.
- Quero.
O resto foi rápido. Bruno ajudou Sílvia a entrar no barco, pegou nos remos, afastou-se da margem, remando para o sítio mais fundo, onde as flores dos golfões pareciam estrelas brancas a boiar.
Fernanda de Castro
Fontebela (1973)
Não sabes?
- Não sabes que às vezes se fala por tédio, por tristeza, por solidão?
Fernanda de Castro
Fontebela (1973)
sábado, 21 de junho de 2014
Não sei se já reparaste
- Mais ou menos. Mas o que eu gosto é de te ouvir falar.
Não sei se já reparaste que normalmente falas muito pouco. Às vezes é difícil arrancar-te uma palavra.
- É estranho, não dou por isso. Deve ser porque não gosto de falar, gosto só de dizer.
Não sei se já reparaste que normalmente falas muito pouco. Às vezes é difícil arrancar-te uma palavra.
- É estranho, não dou por isso. Deve ser porque não gosto de falar, gosto só de dizer.
Fernanda de Castro
Tudo é princípio (póstumo)
Tudo é princípio
- Saudades, recordações?
- Não, tudo isso é dor e passado. Esperança.
- Esperança em quê?
- No futuro.
- E os que não têm futuro?
- Todos têm futuro. Este minuto exacto. Sofia, é presente, mas já pensou que o minuto seguinte já é futuro?
- E os que chegam ao fim, ao último minuto?
- Está a falar da morte?
- Sim, da morte.
- A morte, Sofia, é a maior esperança da vida. Não consigo explicar-lhe nada disto, mas é o que sinto.
- Não, tudo isso é dor e passado. Esperança.
- Esperança em quê?
- No futuro.
- E os que não têm futuro?
- Todos têm futuro. Este minuto exacto. Sofia, é presente, mas já pensou que o minuto seguinte já é futuro?
- E os que chegam ao fim, ao último minuto?
- Está a falar da morte?
- Sim, da morte.
- A morte, Sofia, é a maior esperança da vida. Não consigo explicar-lhe nada disto, mas é o que sinto.
Fernanda de Castro
Tudo é princípio (póstumo)
quarta-feira, 18 de junho de 2014
O Anjo de sal
Poetas
Tive uma irmã gémea
Sonhou com o céu. Chorou.
Nuvemzinha boémia.
Gullherme de Almeida
O anjo de sal (1951)
terça-feira, 17 de junho de 2014
Auto das oferendas
Agora, Adeus. Que Deus fique
Sobre vós, como em Ourique.
António Corrêa d'Oliveira, Auto das oferendas
composto para o cortejo "Festa do Trabalho" em Viana do Castelo.
1 de Maio de 1938
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António Correia de Oliveira
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Bruno
Mariana
Não me pergunta quem sou?
Bruno
Que importa um nome? Muito prazer.
Mariana
Igualmente. Mariana.
Bruno
Bruno
Não me pergunta quem sou?
Bruno
Que importa um nome? Muito prazer.
Mariana
Igualmente. Mariana.
Bruno
Bruno
Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)
Pereiras
Luís Coutinho
Que importância é que isso tem? Recuso-me a ser escravo das horas, como aliás de tudo o que exclua a fantasia. E agora, desculpem, vou deixá-los, as pereiras estão em flor.
Teresa
As pereiras?
Que importância é que isso tem? Recuso-me a ser escravo das horas, como aliás de tudo o que exclua a fantasia. E agora, desculpem, vou deixá-los, as pereiras estão em flor.
Teresa
As pereiras?
Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)
Os cães não mordem
Teresa
Não acredita na ciência?
Luís Coutinho
Mariana
Duvido muito.
Não acredita na ciência?
Luís Coutinho
Acredito, é uma forma de reconhecer Deus. No século passado ainda se pensava que a ciência seria sempre a maior inimiga de Deus. Hoje não estamos longe de acreditar que só a ciência será um dia capaz de provar a sua existência.
Duvido muito.
Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)
Até porque acredito, como Goethe (etc.)
Teresa
Quem me dera amar assim a vida!
Mariana
E odiar assim a morte!
Luís Coutinho
Perdão, eu não odeio a morte, até porque acredito, como Goethe, que o Espírito caminha de Eternidade em Eternidade e que é de natureza absolutamente indestrutível. Não, o que me dói é pensar que uma morte prematura, mesmo não desejada, pode impedir uma vida de cumprir-se. Que lhe parece, padre José?
Padre José
Não me parece nada... Sou um pobre padre de aldeia que pensa o menos possível.
Quem me dera amar assim a vida!
Mariana
E odiar assim a morte!
Luís Coutinho
Perdão, eu não odeio a morte, até porque acredito, como Goethe, que o Espírito caminha de Eternidade em Eternidade e que é de natureza absolutamente indestrutível. Não, o que me dói é pensar que uma morte prematura, mesmo não desejada, pode impedir uma vida de cumprir-se. Que lhe parece, padre José?
Padre José
Não me parece nada... Sou um pobre padre de aldeia que pensa o menos possível.
Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)
Quantos anos tens? Cem.
Bruno, rindo.
Quantos anos tens?
Teresa
Cem. (Rectificando) Dezoito.
Bruno
Estudas?
Teresa
Mais ou menos. Filosofia.
Bruno
Não digas mais nada, só suporto as pessoas enquanto posso imaginá-las como quero: vagas, fluídas, susceptíveis de desaparecer dum momento para o outro, como fantasmas ou miragens.
Quantos anos tens?
Teresa
Cem. (Rectificando) Dezoito.
Bruno
Estudas?
Teresa
Mais ou menos. Filosofia.
Bruno
Não digas mais nada, só suporto as pessoas enquanto posso imaginá-las como quero: vagas, fluídas, susceptíveis de desaparecer dum momento para o outro, como fantasmas ou miragens.
Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)
Feia
Marcos
Serias mais feliz se alguém te domesticasse, se sofresses...
Mariana
Nem todos sofrem da mesma maneira e pelas mesmas razões.
Marcos
Bem sei, julgas-te feia.
Mariana
Não julgo: sou feia, antipática e desastrada.
Marcos
Deixa-te de asneiras, quem te meteu isso na cabeça?
Mariana
Nega, diz que sou bonita.
Serias mais feliz se alguém te domesticasse, se sofresses...
Mariana
Nem todos sofrem da mesma maneira e pelas mesmas razões.
Marcos
Bem sei, julgas-te feia.
Mariana
Não julgo: sou feia, antipática e desastrada.
Marcos
Deixa-te de asneiras, quem te meteu isso na cabeça?
Mariana
Nega, diz que sou bonita.
Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)
Se o amor, um dia
Luís Coutinho, com doçura
Falta-lhe amor, Mariana...
Marcos
Acha que o amor pode substituir tudo... a justiça, por exemplo?
Luís Coutinho
Se amássemos não seríamos injustos.
Mariana
Muito bonito, em teoria... mas a violência, a intolerância, o despotismo, a guerra.
Falta-lhe amor, Mariana...
Marcos
Acha que o amor pode substituir tudo... a justiça, por exemplo?
Luís Coutinho
Se amássemos não seríamos injustos.
Mariana
Muito bonito, em teoria... mas a violência, a intolerância, o despotismo, a guerra.
Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)
Ouviu?
Luís Coutinho
Os sonhos duram exactamente o que nós quisermos que eles durem. (...) A vida é uma coisa magnífica... Ouviu, Teresa? Magnífica!
Teresa
Nunca dei por isso.
Mariana
Nem eu.
Os sonhos duram exactamente o que nós quisermos que eles durem. (...) A vida é uma coisa magnífica... Ouviu, Teresa? Magnífica!
Teresa
Nunca dei por isso.
Mariana
Nem eu.
Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)
Ganha quem ganha
Luís Coutinho
Tudo, a vida é um jogo franco, ganha quem merece ganhar. E só merece quem se arrisca, quem fecha os olhos e mergulha...
Teresa
Nem todos sabem nadar e há quem nasça com uma pedra amarrada ao pescoço.
Tudo, a vida é um jogo franco, ganha quem merece ganhar. E só merece quem se arrisca, quem fecha os olhos e mergulha...
Teresa
Nem todos sabem nadar e há quem nasça com uma pedra amarrada ao pescoço.
Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)
Ar
Teresa, comendo sem repugnância.
Que tem este ar que nos dá vontade de viver, mesmo quando temos vontade de morrer?
Que tem este ar que nos dá vontade de viver, mesmo quando temos vontade de morrer?
Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)
quinta-feira, 29 de maio de 2014
Fernanda de Castro na Semana de Arte Moderna de São Paulo
"Resignada mas inquieta - qual inquieta, aterrada! -, lá organizei os programas, lá aprendi penosamente os poemas e no dia previsto lá entrei no palco como o touro entra na arena ou o cordeiro na ara do sacrifício.
(Além de tudo, naquele tempo, não havia microfones e o teatro era enorme e estava à cunha!) Calculem, pois, a minha profunda surpresa ao chegar ao fim do recital sem desastre de maior e até com certo êxito talvez (talvez, não!, com certeza!) por ter então vinte anos e um vestido verde que me ficava bem. A propósito deste mesmo vestido verde lembro-me que de que a Tarsíla do Amaral e Anita Malfatti, as duas maiores pintoras do Brasil, me pediram para fazer o meu retrato com o dito vestido. Posei para as duas ao mesmo tempo e ainda há poucos anos me disseram que os dois retratos tinham sido expostos em São Paulo, numa retrospectiva da pintura brasileira, dos anos vinte e trinta. (....)
Aquela revolução literária em que a gente nova das letras e das artes, de sangue na guelra, a golpes de panfletos, de discursos, de artigos nos jornais, deu um golpe de morte nos conformistas, nos académicos, nos botas-de-elástico, inesquecível semana em que convivemos diariamente com alguns daqueles que, mais tarde, foram os grandes do Brasil: Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Monteiro Lobato, Menotti del Picchia, José Lins do Rego, Guilherme de Almeida, Paulo Prado e outros de que me lembro menos bem. (...)
Lembrei-me agora, ao copiar estas linhas, de um pequeno episódio cómico que ia acabando muito mal. Estávamos instalados na Rotisserie Sportsman, o melhor hotel de São Paulo nessa época, e todos os nossos amigos iam buscar-nos para um jantar, um passeio, uma visita, uma sessão de cinema. Nessa noite éramos todos convidados de D.Olívia Penteado. (...) Segal, Tarsila, Anita Malfatti, Sergio Milliet, Plínio Salgado, etc., reuniam-se em tremendos conciliábulos e conspiravam continuamente contra todos os burgueses, contra todos os éteceteras da vida, como lhes chamou o António (...). Vesti, pois, o melhor vestido que tinha, de marrocain preto (ainda não o esqueci, como havia de esquecê-lo?) e lá fomos todos até à encruzilhada onde devíamos esperar o bonde.
De repente, já bastante longe do hotel, começou a chover torrencialmente, e à medida que ia chovendo, chovendo, pingos tão grossos que cada um chegaria para matar a sede a um pássaro, o meu vestido ia encolhendo, encolhendo, de tal modo que os meus amigos começaram a rir como doidos, sem me poderem sequer dizer porquê. (...) O meu vestido já não podia encolher mais. (...) Deu-se então uma coisa absurda: o nosso táxi, que estava parado sobre os rails do bonde, foi apanhado por este, que não pôde parar a tempo, e atirado de pernas para o ar, para o lamaçal em que se tornara a estrada de terra batida. Desta vez todos se assustaram, tiraram-me do táxi num estado lastimoso (...). E aqui está como me apresentei pela primeira vez em casa da mulher mais rica e mais elegante de São Paulo, cheia de lama, despenteada, com o resto do vestido pelos joelhos e as meias rotas.
Escusado será dizer que fui recebida triunfalmente e proclamada a Rainha da Semana de Arte Moderna de São Paulo. (...)"
Fernanda de Castro
Ao Fim da Memória, vol. I
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Tarsila do Amaral
Une bombe à tout casser
![]() |
| Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Yvette Farkou, Fernand Lèger e Constantin Brancusi |
"A propósito de Paris, lembro-me de que estive lá a primeira vez, já casada, com 23 anos, se não me engano, a convite dos nossos grandes amigos brasileiros Oswald de Andrade e sua mulher, Tarsila do Amaral, que conheceramos em São Paulo no ano anterior. (...) Ela e Oswald viviam uma vida de simpática boémia, de alegre camaradagem com artistas e escritores, sobretudo com músicos, pouco ou nada conhecidos ainda, mas que depressa iriam afirmar os seus nomes. O pequeno e heterogenio grupo a que logo nos associámos era assim constituído: Oswald e Tarsíla, Honegger, Erick Satie, Poulenc, Picabia, Paul Poiret, o intelectual da moda, o António e eu.
Como ele próprio nos disse, Oswald tivera uma pequena herança no Brasil, que no seu entender não chegava para nada a sério, resolvendo por isso gastá-la com Tarsila e os amigos, fazendo enquanto durasse «une bombe à tout casser» (sic).
Todos os dias, às 8 horas, nos encontrávamos em qualquer restaurante ou em qualquer «bistro», e cada um pagava o seu jantar. Depois era tudo por conta do Oswald, que metodicamente organizava os seus programas. (...)
Eu, que nessa altura gostava de me deitar cedo, começava, por volta da uma, a cabecear com sono, até que um dia Oswald se voltou para mim, furioso:
- Gasta a gente um dinheirão com esta mulher e o que ela quer, o que lhe dava mesmo gosto, era ir para a cama, para a caminha, com a chucha e o biberon!
Riram todos e eu mais do que ninguém porque era rigorosamente verdade: biberon e chucha à parte, o que na realide queria, à noite, era deitar-me para saborear Paris, não o Paris nocturno que nunca me interessou muito, mas o Paris diurno que eu andava a soletrar, a decorar pedra a pedra, bairro a bairro, o Paris das Tuileries e de Notre-Dame, do Sacré Coeur e do Bois de Boulogne, da Place Vendôme, do Palais Royal e do Quartier Latin, do Sena, das suas pontes e das suas péniches. (...)"
Fernanda de Castro
Ao Fim da Memória vol. I
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Minimáximas para uma amiga impaciente
1) Quanto maior é a sede melhor é a água.
2) A crisálida dorme no casulo, mas um dia a borboleta voa.
3) Se queres uma boa fornada, deixa levedar bem o teu pão.
4) Segura o leme com força: um barco à deriva raramente chega a bom porto.
5) Não há rosa sem espinho, mas não há espinho sem rosa.
6) O Inverno mais rigoroso não impede que as árvores na Primavera se cubram de folhas.
7) A vida é música; e um dos acidentes da música é a pausa.
8) Quando a vida parece morta, está apenas adormecida. Deixa-a descansar: a vida também tem direito à Vida.
2) A crisálida dorme no casulo, mas um dia a borboleta voa.
3) Se queres uma boa fornada, deixa levedar bem o teu pão.
4) Segura o leme com força: um barco à deriva raramente chega a bom porto.
5) Não há rosa sem espinho, mas não há espinho sem rosa.
6) O Inverno mais rigoroso não impede que as árvores na Primavera se cubram de folhas.
7) A vida é música; e um dos acidentes da música é a pausa.
8) Quando a vida parece morta, está apenas adormecida. Deixa-a descansar: a vida também tem direito à Vida.
Fernanda de Castro
Ao Fim da Memória vol. I
Doido, completamente doido
"Fernanda de Castro registou nas suas memórias a viagem ao Brasil em 1922, onde por sinal casou, apadrinhados por Gago Coutinho, com António Ferro por então mobilizado na apresentação da sua peça teatral “Mar Alto”, que correu em São Paulo e no Rio – e haveria de criar burburinho em Lisboa, no ano seguinte –, e em conferências. Além da já referida, também “A Idade do Jazz-band”, lidas ambas em digressão triunfal pelo Brasil, com acolhimento de Oswald de Andrade, que Fernanda de Castro (igualmente colaboradora da Contemporânea) diria ser doido, completamente doido, apesar de tudo, diferente do seu marido que considerava, apenas, atrevido e ousado. (...)"
Luís Bigotte Chorão
no blogue Malomil, aqui
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sábado, 5 de abril de 2014
Fernanda de Castro, Vitorino Nemésio, David Mourão-Ferreira, entre outros
Jantar de homenagem a Natália Correia (1969) no restaurante «A Quinta». Discursaram Vitorino Nemésio, David Mourão Ferreira, Natália Correia, José Carlos Ary dos Santos, Hernâni Cidade, Luís Oliveira Guimarães, Fernanda de Castro, entre outros.
quarta-feira, 2 de abril de 2014
Bloco 65 (1965)
não saberá jamais
que há pensamento,
sofrimento,
e muitas coisas mais.
A velha actriz, à janela,
procura no céu a estrela
que imagina ser a dela.
(...)
Fernanda de Castro
segunda-feira, 31 de março de 2014
O POÇO
![]() |
| Ilustração de Luís Manuel Gaspar para o poema «Poço» de Fernanda de Castro 'prelo', 3.ª série, n.º 2, lisboa, incm, maio-ago. 2006 |
Velho poço de água velha,
que não reflecte nem espelha luz de olhar,
brilho de estrela.
Toalha verde e amarela
de folhas apodrecidas,
avencas, líquenes, fetos,
sob os quais pulula a Vida
em mim vida repartida:
bactérias, larvas, insectos.
Paredes viscosas, tortas,
paredes já sem idade
que segregam humidade
e cheiram a coisas mortas.
Vida e Morte confundidas.
Não há barreiras nem fosso,
nem fronteiras definidas
nas águas turvas do poço.
Fernanda de Castro
sábado, 29 de março de 2014
Lisboa é uma fornalha
quarta-feira, 12 de março de 2014
terça-feira, 11 de março de 2014
Assunto arrumado
"A biografia de Fernanda de Castro (1900-1994) pesa hoje, ainda, sobre a sua obra poética, impedindo uma análise despida das leituras políticas que a biografia implica.Terá que ser a geração agora nos 30 anos, ou mais nova, para quem as contas do Estado Novo sejam assunto arrumado em livros de biblioteca, a fazer a leitura desta poesia, no seu valor literário. (...)"
Carlos Mendonça Lopes
sobre Fernanda de Castro no blogue vicío da poesia.
sobre Fernanda de Castro no blogue vicío da poesia.
Continue a ler aqui.
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
Que mania da lógica
"Hoje, quando acordei, ainda era escuro, tinha o quarto cheio de frésias e de lilases. A metade de mim já acordada pensou: «Frésias e lilases no Inverno? Impossível!»
A outra metade retorquiu. «Que mania da lógica! O que tem importância é que cheirem bem!."
Fernanda de Castro
Ao Fim da Memória vol. II
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Pobre como S. Francisco
Fernanda de Castro
Introdução a Cartas a um Poeta, de Rainer Maria Rilke
Portugália (s.d)
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Fernanda de Castro a caminho de Espanha com Almada Negreiros e outros amigos
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Maria
Não te vejo de azul, Virgem Maria,
Hirta no andor, com vestes de cetim,
Cabelos de oiro, olhar de alegoria...
Perdão, Senhora, não te vejo assim
Não te vejo no altar, parada e fria,
Entre eflúvios de incenso e de jasmim
E aos pés anjinhos de oleografia....
Não és, Senhora, nunca foste assim
Não te vejo entre nuvens cor-de-rosa
Vejo-te, sim, humana e dolorosa,
Na terra, entre os mortais, os pecadores,
Pés em chaga na poeira dos caminhos,
Sangrando em cada dedo um anel de espinhos
E em cada passo a dor das sete dores.
Fernanda de Castro
domingo, 25 de agosto de 2013
Senhor
Senhor,
Pouco resta no mundo que mereça
O vosso olhar.
A Humanidade, sem graça, é triste…
Pombas de asas cortadas, rosas murchas,
Povoam vosso altar!
Senhor,
Pouco resta no mundo que mereça
A vossa graça.
Nas cearas do Céu alastra o joio,
A colheita do amor é pobre e escassa.
Senhor,
Algo porém, no mundo ainda merece
A cruz e a palma
Da vossa glória… As almas das crianças
Açucenas do Céu, ainda são almas,
Alma que é mais dos anjos que dos homens,
Alma que sabe a flor, a fonte a pão
E a Vós sobe, puríssima e radiosa
Nesta manhã de Primeira Comunhão.
Pouco resta no mundo que mereça
O vosso olhar.
A Humanidade, sem graça, é triste…
Pombas de asas cortadas, rosas murchas,
Povoam vosso altar!
Senhor,
Pouco resta no mundo que mereça
A vossa graça.
Nas cearas do Céu alastra o joio,
A colheita do amor é pobre e escassa.
Senhor,
Algo porém, no mundo ainda merece
A cruz e a palma
Da vossa glória… As almas das crianças
Açucenas do Céu, ainda são almas,
Alma que é mais dos anjos que dos homens,
Alma que sabe a flor, a fonte a pão
E a Vós sobe, puríssima e radiosa
Nesta manhã de Primeira Comunhão.
Fernanda de Castro
segunda-feira, 29 de julho de 2013
Antologia Portuguesa e Brasileira
![]() |
| Antologia organizada por Evaristo Pontes dos Santes 1974 |
Autores: Gonçalves Dias, Tomás Ribeiro; Afonso Celso, Alberto de Oliveira, Antônio Carlos, Artur Azevedo, Augusto de Lima, Bernardino Lopes, Carmen Cinira, Castro Alves, Catulo da Paixão Cearense, Cruz e Sousa, Da Costa e Silva, Gonçalves Crespo, Gregório de Matos, Hermes Fontes, Iracema Nunes de Andrade, Jorge de Lima, Laurindo Rabelo, Lisette Villar de Lucena Tacla, Machado de Assis, Manuel Bandeira, Manuel Botelho de Oliveira, Olavo Bilac, Olegário Mariano, D. Pedro II, Raimundo Corrêa, Raul de Leoni, Rita de Lara, Rui Barbosa; Afonso Lopes Vieira, Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Antero de Quental, António Correia de Oliveira, António Nobre, António Sardinha, Padre António Vieira, Augusto Gil, Manuel Maria Barbosa du Bocage, Luís de Camões, Cândido Guerreiro, Fernanda de Castro, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, D. Francisco Manuel de Melo, Guerra Junqueiro, João de Deus, José da Silva Dinis, José Duro, Júlio Dantas, Ramiro Guedes de Campos, Anónimo.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
pingue-pingue
(Estarei morta?
Como um velho boneco
com a corda partida,
um dia irei da vida
numa caixa comprida).
Mas se estou morta
deveria calar-se
o pingo da torneira,
ou terei de o ouvir
a morte inteira?
(Será isto o inferno,
uma torneira,
pingue-pingue,
a morte inteira?)
Como um velho boneco
com a corda partida,
um dia irei da vida
numa caixa comprida).
Mas se estou morta
deveria calar-se
o pingo da torneira,
ou terei de o ouvir
a morte inteira?
(Será isto o inferno,
uma torneira,
pingue-pingue,
a morte inteira?)
Fernanda de Castro
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Não queiras a piedade de ninguém
"Não queiras a piedade de ninguém.
Faze do teu orgulho uma couraça.
A piedade é uma forma de desdém.
Nunca peças esmolas a quem passa.
Mostra, em silêncio, que tens nervo, raça,
e espera. Atrás do tempo, tempo vem.
E se a ventura for rebelde ou escassa,
que seja o orgulho o teu supremo bem."
Faze do teu orgulho uma couraça.
A piedade é uma forma de desdém.
Nunca peças esmolas a quem passa.
Mostra, em silêncio, que tens nervo, raça,
e espera. Atrás do tempo, tempo vem.
E se a ventura for rebelde ou escassa,
que seja o orgulho o teu supremo bem."
Fernanda de Castro
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