sábado, 18 de outubro de 2014

Capa de Sarah Affonso

As Aventuras de Mariasinha, Vicente e companhia
Edição Casa do Livro (s.d)

Canção

"É viúva do escritor António Ferro. A sua poesia patenteia-se fremente, banhada da claridade do sol e álacre pela vida que nela estua. Noutras vezes, porém, a sua alma espreita, compadecida, os infortúnios humanos e deles recebe o tom da sua canção."

João Cabral do Nascimento 
sobre Fernanda de Castro em Líricas Portuguesas, Segunda série
via Antologia do esquecimento, de Henrique Manuel Bento Fialho.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Jardim Fernanda de Castro

"A autora de Cidade em Flor (1924) e Jardim (1928) dá apropriadamente o seu nome a um jardim de Lisboa, na Encosta do Restelo, desde a publicação do Edital de 30/07/1999 e cerca de 5 anos após o seu falecimento. (...)"

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sábado, 2 de agosto de 2014

Quando Ferro entrevista Hitler


"Começa metendo “eu” na reportagem (Chego a Munique…) e vai prosseguir com uma escrita viva e coloquial. Junta a isso o sentido de oportunidade do bom jornalista: pouco depois de o Partido Nazi ter começado a sua ascensão institucional (em setembro de 1930, com 107 deputados tornara-se o segundo maior partido no parlamento alemão, Reichstag, só ultrapassado pelos socialistas), o repórter internacional do DN António Ferro, vindo de Berlim, desce do wagon-lits na capital da Baviera. Vai “para ver Hitler, para falar a Hitler, para conhecer o herói do romance…”, em Munique, a cidade onde as fardas paramilitares das SA impõem já a ordem castanha. (...) Ao seu hotel vai ter um enviado do partido, um alemão enorme, chegado de bicicleta: um bávaro cordial, insinuante, duma instintiva amabilidade, uma daquelas canecas altas, acolhedoras, espumantes da Casa da Cerveja, da Hofbrauhaus.
Este homem, que Ferro julga ser um simples funcionário do partido, vai dar-lhe a má notícia de que Hitler não dá entrevistas a quem não fala alemão mas só o odiado francês… Hanfstaengl também se inquieta com a condecoração que o português traz ao peito, mas não, não é a Légion d’Honneur, é a Cruz de Cristo, portuguesa – tranquiliza Ferro, que, no entanto, a guarda no bolso. O jornalista insiste, mostra o seu livro Viagem à Volta das Ditaduras, entrevistas a Mussolini, ao espanhol Primo de Rivera, ao turco Atatürk… -, Ferro quer convencer com o seu gosto por homens fortes (e ainda não escrevera Salazar, o Homem e a Obra, que só seria publicado em 1933). Hanfstaengl morde o isco e pede-lhe para ele dedicar um exemplar a Hitler. (...)"

Ferreira Fernandes
DN, 2 de Agosto de 2014

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Uma obra social limada de asperezas

"Não é demais pôr em relevo a figura da criadora dos Parques Infantis, a grande poetisa Fernanda de Castro, que concebeu uma obra social limada de asperezas, que soube amparar as crianças com a mesma alma em flôr com que escreveu os seus versos. (...)"

Maria Archer
(1943)

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Festa redonda


A Fernanda de Castro
e António Ferro
à sua partida para Berna - esta lembrança
do seu velho camarada

Vitorino Nemésio

terça-feira, 24 de junho de 2014

Bruno e Sílvia

 - Tens medo? - perguntou Bruno.
Sílvia fechou os olhos e murmurou, à beira das lágrimas:
- Não.
- Queres?
Tinha chegado o momento. Que lhe dissera um dia o velho senhor? Ah, sim: «A vida é um jogo franco, ganha quem merece ganhar. E só merece ganhar quem se arrisca, quem fecha os olhos e mergulha.»
- Queres? - insistiu Bruno.
- Quero.
O resto foi rápido. Bruno ajudou Sílvia a entrar no barco, pegou nos remos, afastou-se da margem, remando para o sítio mais fundo, onde as flores dos golfões pareciam estrelas brancas a boiar.

Fernanda de Castro
Fontebela (1973)

Não sabes?

 - Não sabes que às vezes se fala por tédio, por tristeza, por solidão?

Fernanda de Castro
Fontebela (1973)

sábado, 21 de junho de 2014

Não sei se já reparaste

- Mais ou menos. Mas o que eu gosto é de te ouvir falar.
Não sei se já reparaste que normalmente falas muito pouco. Às vezes é difícil arrancar-te uma palavra.

- É estranho, não dou por isso. Deve ser porque não gosto de falar, gosto só de dizer.

Fernanda de Castro 
Tudo é princípio (póstumo)

Tudo é princípio

- Saudades, recordações?
- Não, tudo isso é dor e passado. Esperança.
- Esperança em quê?
- No futuro.
- E os que não têm futuro?
- Todos têm futuro. Este minuto exacto. Sofia, é presente, mas já pensou que o minuto seguinte já é futuro?
- E os que chegam ao fim, ao último minuto?
- Está a falar da morte?
- Sim, da morte.
- A morte, Sofia, é a maior esperança da vida. Não consigo explicar-lhe nada disto, mas é o que sinto.

Fernanda de Castro
Tudo é princípio (póstumo)

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O Anjo de sal



Poetas

Tive uma irmã gémea 
Sonhou com o céu. Chorou.
Nuvemzinha boémia.

Gullherme de Almeida
O anjo de sal (1951)



terça-feira, 17 de junho de 2014

Auto das oferendas


Agora, Adeus. Que Deus fique 
Sobre vós, como em Ourique.

António Corrêa d'OliveiraAuto das oferendas
composto para o cortejo "Festa do Trabalho" em Viana do Castelo.
1 de Maio de 1938

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Bruno

Mariana

Não me pergunta quem sou?

Bruno

Que importa um nome? Muito prazer.

Mariana

Igualmente. Mariana.

Bruno

Bruno

Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)

Pereiras

Luís Coutinho

Que importância é que isso tem? Recuso-me a ser escravo das horas, como aliás de tudo o que exclua a fantasia. E agora, desculpem, vou deixá-los, as pereiras estão em flor.

Teresa

As pereiras?

Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)


Os cães não mordem

Teresa

Não acredita na ciência?

Luís Coutinho

Acredito, é uma forma de reconhecer Deus. No século passado ainda se pensava que a ciência seria sempre a maior inimiga de Deus. Hoje não estamos longe de acreditar que só a ciência será um dia capaz de provar a sua existência.

Mariana

Duvido muito.

Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)

Até porque acredito, como Goethe (etc.)

Teresa

Quem me dera amar assim a vida!

Mariana

E odiar assim a morte!

Luís Coutinho

Perdão, eu não odeio a morte, até porque acredito, como Goethe, que o Espírito caminha de Eternidade em Eternidade e que é de natureza absolutamente indestrutível. Não, o que me dói é pensar que uma morte prematura, mesmo não desejada, pode impedir uma vida de cumprir-se. Que lhe parece, padre José?

Padre José

Não me parece nada... Sou um pobre padre de aldeia que pensa o menos possível.

Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)

Quantos anos tens? Cem.

Bruno, rindo.

Quantos anos tens?

Teresa

Cem. (Rectificando) Dezoito.

Bruno

Estudas?

Teresa

Mais ou menos. Filosofia.

Bruno

Não digas mais nada, só suporto as pessoas enquanto posso imaginá-las como quero: vagas, fluídas, susceptíveis de desaparecer dum momento para o outro, como fantasmas ou miragens.

Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)

Feia

Marcos

Serias mais feliz se alguém te domesticasse, se sofresses...

Mariana

Nem todos sofrem da mesma maneira e pelas mesmas razões.

Marcos

Bem sei, julgas-te feia.

Mariana

Não julgo: sou feia, antipática e desastrada.

Marcos

Deixa-te de asneiras, quem te meteu isso na cabeça?

Mariana

Nega, diz que sou bonita.

Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)

Se o amor, um dia

Luís Coutinho, com doçura

Falta-lhe amor, Mariana...

Marcos

Acha que o amor pode substituir tudo... a justiça, por exemplo?

Luís Coutinho

Se amássemos não seríamos injustos.

Mariana

Muito bonito, em teoria... mas a violência, a intolerância, o despotismo, a guerra.

Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)