segunda-feira, 27 de outubro de 2014
sábado, 18 de outubro de 2014
Capa de Sarah Affonso
Canção
"É viúva do escritor António Ferro. A sua poesia patenteia-se fremente, banhada da claridade do sol e álacre pela vida que nela estua. Noutras vezes, porém, a sua alma espreita, compadecida, os infortúnios humanos e deles recebe o tom da sua canção."
João Cabral do Nascimento
sobre Fernanda de Castro em Líricas Portuguesas, Segunda série
via Antologia do esquecimento, de Henrique Manuel Bento Fialho.
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João Cabral do Nascimento
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
Jardim Fernanda de Castro
"A autora de Cidade em Flor (1924) e Jardim (1928) dá apropriadamente o seu nome a um jardim de Lisboa, na Encosta do Restelo, desde a publicação do Edital de 30/07/1999 e cerca de 5 anos após o seu falecimento. (...)"
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sábado, 2 de agosto de 2014
Quando Ferro entrevista Hitler
Este homem, que Ferro julga ser um simples funcionário do partido, vai dar-lhe a má notícia de que Hitler não dá entrevistas a quem não fala alemão mas só o odiado francês… Hanfstaengl também se inquieta com a condecoração que o português traz ao peito, mas não, não é a Légion d’Honneur, é a Cruz de Cristo, portuguesa – tranquiliza Ferro, que, no entanto, a guarda no bolso. O jornalista insiste, mostra o seu livro Viagem à Volta das Ditaduras, entrevistas a Mussolini, ao espanhol Primo de Rivera, ao turco Atatürk… -, Ferro quer convencer com o seu gosto por homens fortes (e ainda não escrevera Salazar, o Homem e a Obra, que só seria publicado em 1933). Hanfstaengl morde o isco e pede-lhe para ele dedicar um exemplar a Hitler. (...)"
Ferreira Fernandes
DN, 2 de Agosto de 2014
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Hitler
quarta-feira, 23 de julho de 2014
Uma obra social limada de asperezas
"Não é demais pôr em relevo a figura da criadora dos Parques Infantis, a grande poetisa Fernanda de Castro, que concebeu uma obra social limada de asperezas, que soube amparar as crianças com a mesma alma em flôr com que escreveu os seus versos. (...)"
Maria Archer
(1943)
segunda-feira, 21 de julho de 2014
Festa redonda
A Fernanda de Castro
e António Ferro
à sua partida para Berna - esta lembrança
do seu velho camarada
Vitorino Nemésio
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Vitorino Nemésio
terça-feira, 24 de junho de 2014
Bruno e Sílvia
- Tens medo? - perguntou Bruno.
Sílvia fechou os olhos e murmurou, à beira das lágrimas:
- Não.
- Queres?
Tinha chegado o momento. Que lhe dissera um dia o velho senhor? Ah, sim: «A vida é um jogo franco, ganha quem merece ganhar. E só merece ganhar quem se arrisca, quem fecha os olhos e mergulha.»
- Queres? - insistiu Bruno.
- Quero.
O resto foi rápido. Bruno ajudou Sílvia a entrar no barco, pegou nos remos, afastou-se da margem, remando para o sítio mais fundo, onde as flores dos golfões pareciam estrelas brancas a boiar.
Sílvia fechou os olhos e murmurou, à beira das lágrimas:
- Não.
- Queres?
Tinha chegado o momento. Que lhe dissera um dia o velho senhor? Ah, sim: «A vida é um jogo franco, ganha quem merece ganhar. E só merece ganhar quem se arrisca, quem fecha os olhos e mergulha.»
- Queres? - insistiu Bruno.
- Quero.
O resto foi rápido. Bruno ajudou Sílvia a entrar no barco, pegou nos remos, afastou-se da margem, remando para o sítio mais fundo, onde as flores dos golfões pareciam estrelas brancas a boiar.
Fernanda de Castro
Fontebela (1973)
Não sabes?
- Não sabes que às vezes se fala por tédio, por tristeza, por solidão?
Fernanda de Castro
Fontebela (1973)
sábado, 21 de junho de 2014
Não sei se já reparaste
- Mais ou menos. Mas o que eu gosto é de te ouvir falar.
Não sei se já reparaste que normalmente falas muito pouco. Às vezes é difícil arrancar-te uma palavra.
- É estranho, não dou por isso. Deve ser porque não gosto de falar, gosto só de dizer.
Não sei se já reparaste que normalmente falas muito pouco. Às vezes é difícil arrancar-te uma palavra.
- É estranho, não dou por isso. Deve ser porque não gosto de falar, gosto só de dizer.
Fernanda de Castro
Tudo é princípio (póstumo)
Tudo é princípio
- Saudades, recordações?
- Não, tudo isso é dor e passado. Esperança.
- Esperança em quê?
- No futuro.
- E os que não têm futuro?
- Todos têm futuro. Este minuto exacto. Sofia, é presente, mas já pensou que o minuto seguinte já é futuro?
- E os que chegam ao fim, ao último minuto?
- Está a falar da morte?
- Sim, da morte.
- A morte, Sofia, é a maior esperança da vida. Não consigo explicar-lhe nada disto, mas é o que sinto.
- Não, tudo isso é dor e passado. Esperança.
- Esperança em quê?
- No futuro.
- E os que não têm futuro?
- Todos têm futuro. Este minuto exacto. Sofia, é presente, mas já pensou que o minuto seguinte já é futuro?
- E os que chegam ao fim, ao último minuto?
- Está a falar da morte?
- Sim, da morte.
- A morte, Sofia, é a maior esperança da vida. Não consigo explicar-lhe nada disto, mas é o que sinto.
Fernanda de Castro
Tudo é princípio (póstumo)
quarta-feira, 18 de junho de 2014
O Anjo de sal
Poetas
Tive uma irmã gémea
Sonhou com o céu. Chorou.
Nuvemzinha boémia.
Gullherme de Almeida
O anjo de sal (1951)
terça-feira, 17 de junho de 2014
Auto das oferendas
Agora, Adeus. Que Deus fique
Sobre vós, como em Ourique.
António Corrêa d'Oliveira, Auto das oferendas
composto para o cortejo "Festa do Trabalho" em Viana do Castelo.
1 de Maio de 1938
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António Correia de Oliveira
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Bruno
Mariana
Não me pergunta quem sou?
Bruno
Que importa um nome? Muito prazer.
Mariana
Igualmente. Mariana.
Bruno
Bruno
Não me pergunta quem sou?
Bruno
Que importa um nome? Muito prazer.
Mariana
Igualmente. Mariana.
Bruno
Bruno
Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)
Pereiras
Luís Coutinho
Que importância é que isso tem? Recuso-me a ser escravo das horas, como aliás de tudo o que exclua a fantasia. E agora, desculpem, vou deixá-los, as pereiras estão em flor.
Teresa
As pereiras?
Que importância é que isso tem? Recuso-me a ser escravo das horas, como aliás de tudo o que exclua a fantasia. E agora, desculpem, vou deixá-los, as pereiras estão em flor.
Teresa
As pereiras?
Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)
Os cães não mordem
Teresa
Não acredita na ciência?
Luís Coutinho
Mariana
Duvido muito.
Não acredita na ciência?
Luís Coutinho
Acredito, é uma forma de reconhecer Deus. No século passado ainda se pensava que a ciência seria sempre a maior inimiga de Deus. Hoje não estamos longe de acreditar que só a ciência será um dia capaz de provar a sua existência.
Duvido muito.
Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)
Até porque acredito, como Goethe (etc.)
Teresa
Quem me dera amar assim a vida!
Mariana
E odiar assim a morte!
Luís Coutinho
Perdão, eu não odeio a morte, até porque acredito, como Goethe, que o Espírito caminha de Eternidade em Eternidade e que é de natureza absolutamente indestrutível. Não, o que me dói é pensar que uma morte prematura, mesmo não desejada, pode impedir uma vida de cumprir-se. Que lhe parece, padre José?
Padre José
Não me parece nada... Sou um pobre padre de aldeia que pensa o menos possível.
Quem me dera amar assim a vida!
Mariana
E odiar assim a morte!
Luís Coutinho
Perdão, eu não odeio a morte, até porque acredito, como Goethe, que o Espírito caminha de Eternidade em Eternidade e que é de natureza absolutamente indestrutível. Não, o que me dói é pensar que uma morte prematura, mesmo não desejada, pode impedir uma vida de cumprir-se. Que lhe parece, padre José?
Padre José
Não me parece nada... Sou um pobre padre de aldeia que pensa o menos possível.
Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)
Quantos anos tens? Cem.
Bruno, rindo.
Quantos anos tens?
Teresa
Cem. (Rectificando) Dezoito.
Bruno
Estudas?
Teresa
Mais ou menos. Filosofia.
Bruno
Não digas mais nada, só suporto as pessoas enquanto posso imaginá-las como quero: vagas, fluídas, susceptíveis de desaparecer dum momento para o outro, como fantasmas ou miragens.
Quantos anos tens?
Teresa
Cem. (Rectificando) Dezoito.
Bruno
Estudas?
Teresa
Mais ou menos. Filosofia.
Bruno
Não digas mais nada, só suporto as pessoas enquanto posso imaginá-las como quero: vagas, fluídas, susceptíveis de desaparecer dum momento para o outro, como fantasmas ou miragens.
Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)
Feia
Marcos
Serias mais feliz se alguém te domesticasse, se sofresses...
Mariana
Nem todos sofrem da mesma maneira e pelas mesmas razões.
Marcos
Bem sei, julgas-te feia.
Mariana
Não julgo: sou feia, antipática e desastrada.
Marcos
Deixa-te de asneiras, quem te meteu isso na cabeça?
Mariana
Nega, diz que sou bonita.
Serias mais feliz se alguém te domesticasse, se sofresses...
Mariana
Nem todos sofrem da mesma maneira e pelas mesmas razões.
Marcos
Bem sei, julgas-te feia.
Mariana
Não julgo: sou feia, antipática e desastrada.
Marcos
Deixa-te de asneiras, quem te meteu isso na cabeça?
Mariana
Nega, diz que sou bonita.
Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)
Se o amor, um dia
Luís Coutinho, com doçura
Falta-lhe amor, Mariana...
Marcos
Acha que o amor pode substituir tudo... a justiça, por exemplo?
Luís Coutinho
Se amássemos não seríamos injustos.
Mariana
Muito bonito, em teoria... mas a violência, a intolerância, o despotismo, a guerra.
Falta-lhe amor, Mariana...
Marcos
Acha que o amor pode substituir tudo... a justiça, por exemplo?
Luís Coutinho
Se amássemos não seríamos injustos.
Mariana
Muito bonito, em teoria... mas a violência, a intolerância, o despotismo, a guerra.
Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)
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