sábado, 10 de janeiro de 2015

"Fernanda de Castro em Marvão"


Mário Casa Nova Martins "Fernanda de Castro em Marvão" 
Revista Plátano n.º 3
(leia um excerto deste artigo aqui)

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Uma bela edição


Publicidade à tradução de Cartas a um poeta de Rainer Maria Rilke
Mundo Literário, Semanário de Crítica e informação, nº.14, 10 de Agosto de 1946

sábado, 3 de janeiro de 2015

Um sonho

"Em Marvão não tem televisão nem telefonia. Na vila não se vendem jornais. Tudo o que se vai passando em Portugal aquele Verão de 1974 chega-lhe por carta, ou por jornais que lhe mandam. Sente-se desorientada e perplexa. Porém, os novos tempos não eram seguros, e tem que regressar a Lisboa nos finais de Outubro, porque a sua casa tinha sido assaltada. Também, se aquele incidente desagradável não tivesse acontecido, em breve voltaria a Lisboa, pois em Marvão, nos fins de Outubro, já era frio, sobretudo à tardinha e de noite. Por outro lado, a lareira que funcionava lindamente, agora, quando se acendia, parecia não ter tiragem, espalhando-se o fumo pela sala, de maneira que não se podia respirar.
Cansada de tanto escrever, tem um sonho, no qual o céu se fende, despejando torrentes de água. (...)"

Mário Casa Nova Martins
"Fernanda de Castro em Marvão"
Revista Plátano n.º 3, pp. 83-90

Revista plátano, nº.3 (2006)


Voies du paysage: représentations du monde lusophone

-


Roxana Eminescu 
Voies du Paysage (dir. Jacqueline Penjon) 
Press Sorbonne Nouvelle

Positivamente

"Fernanda de Castro comove-me. Ela tem o segredo de uma fórmula, que é a de atingir positivamente tanto a minha percepção crítica quanto a minha sensibilidade de leitora, o que não acontece muitas vezes. (...)"

Fernanda Botelho
"A Festa da Memória" Colóquio Letras, N.º 115/116 (Maio 1990)

A Festa da Memória

Clique para ler.

Fernanda Botelho
Colóquio Letras, N.º 115/116 (Maio 1990)

Marvão

São de granito as pedras de Marvão,
mas, ainda mais, são páginas de História.
Houve sangue, houve dor mas houve glória
neste castelo há séculos cristão.

Esta glória é de todos, da Nação
que a mereceu e a guarda na memória.
Foi muito caro o preço da vitória,
quantas vezes a fome em vez de pão.

Castelo de Marvão, águia-real,
asas abertas sobre Portugal
pousada no granito da montanha.

Em torno a mata, as silvas, os penedos;
em baixo o rio, a várzea, os arvoredos,
e ao longe a Estremadura, a velha Espanha.

Fernanda de Castro

Entrevista de Fernanda de Castro a Ana de Castro Osório

Diário de Lisboa, 21 de Abril de 1921

"Mas decididamente eu não tenho jeito nenhum para entrevistar ninguém. Acho sempre desagradável arrancar opiniões ou forçar comentários. (...)"

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Irmãs Meireles interpretam "Um grande amor" de Fernanda de Castro.


"Vira da Desfolhada" na versão de Fernanda de Castro, no filme «As Pupilas do Senhor Reitor»


«As Pupilas do senhor Reitor», Leitão de Barros (1935)

ELE: Roubei-te um beijo Maria/ Desde esse dia/morra se minto/ por uma coisa tão pouca/ pica-me a boca / não sei que sinto/ELA: Mal haja o ladrão de estrada/ te renego, cruzes, figas/ beijo dado sabe a rosas/ mas roubado sabe a urtigas/ CÔRO: Vira, vira, virou/ vira e torna a virar/ Roda, roda, rodou/ Cada qual com seu par/ ELA: A chita da minha blusa/ já não se usa/ foge demónio/ Não quero a tua riqueza/ quero a pobreza/ do meu António/ ELE: Fazes mal ó moreninha/ que o amor de marinheiro/ sobe e desce como as ondas/ é como agulha em palheiro/ CÔRO: Vira, vira, virou/ vira e torna a virar/ Roda, roda, rodou/ Cada qual com seu par/ ELE: Adeus, amor vai-te embora/ deita-me fora/ não tenhas dó/ A roseira mais bravia/ não tem Maria/ uma rosa só.

Teresa Salgueiro interpreta "Vira da Desfolhada" na versão de Fernanda de Castro

Fernanda de Castro, Ary dos Santos e Inês Guerreiro


I Festival do Algarve (1964)

Descerramento da placa comemorativa

Amália Rodrigues e Fernanda de Castro

No I Festival do Algarve, org. de Fernanda de Castro (1964)

Fernanda de Castro e Amália Rodrigues


"É claro que não tenho tempo nem espaço para contar demoradamente todos os números que constituíram este Festival. Não posso, no entanto, deixar de me referir, embora ao de leve, a alguns dos seus pontos mais altos. Estou a pensar por exemplo na Festa da Lua, em Armação de Pêra: primeiro, uma visita às furnas, iluminadas com archotes, onde vivem centenas ou talvez milhares de pombas-bravas; no mar, todos os barcos de Armação engalanados e iluminados; no meio do areal, um barco colorido, rodeado por uma guarda de honra de pescadores, de remos ao alto. E, sobre esse barco, pálida, sob a pálida brancura da Lua, Amália, sozinha, de pé, com um vestido negro que a tornava ainda mais branca. Na praia, coalhada de gente, um silêncio mortal. Começaram a ouvir-se as guitarras escondidas na sombra e a voz de Amália, vibrante, pura como um cristal, abalou o silêncio, a noite, a própria Lua que a iluminava. Havia uma leve aragem e eu disse à Jacqueline, que tinha vindo passar umas semanas a Alporchinhos:
Dommage qu’il fasse un peu froid.
Ao nosso lado uma francesa, elegante e muito bela, voltou-se para mim, sorriu e disse:
Qu’est-ce que ça fait, madame! C’est beau, c’est terrivelmente beau!
Amália cantou, cantou, cantou durante duas horas, e depois, quebrado o fascínio, andou de grupo em grupo na praia, onde tínhamos preparado, sobre a areia, uma ceia bem típica: «vilas» de amêijoas, ostras e polvos grelhados, azeitonas britadas com orégãos, pão de trigo, queijos de Serpa, vinho da Lagoa e de Portimão, figos e amêndoas, morgadinhos e dom-rodrigos, aguardente de medronho, etc., etc., tudo incluído no bilhete de entrada no grande recinto reservado da praia. Foi nessa ceia que o Larbi Jacoubi, visivelmente impressionado com Amália, tirou do dedo um anel que lhe ofereceu com estas palavras:
– Como vê, este anel tem como adorno um olho de boneca. Tenho outro igual em Tânger, com o outro olho da mesma boneca. Use este, que eu vou usar o outro, e assim ficaremos ligados até ao fim da vida.
Não sei por onde andará a estas horas o anel do Larbi. O da Amália, na melhor das hipóteses, está certamente esquecido, abandonado, no fundo duma dessas gavetas que se abrem de anos a anos e que cheiram a passado, a coisa morta, a velhos perfumes que foram mas que já não são.
(...) Limitar-me-ei, pois, a falar dos dois pontos mais altos desta nova série de espectáculos. Amália cantava em Albufeira sobre um estrado de madeira, numa grande esplanada na praia. Estava um pouco de vento e havia humidade no ar. Quando Amália chegou a meio da tarde, convidei-a para tomar chá no hotel e ela disse-nos, à Inês e a mim, que estava preocupada com a sua garganta, pois, além de não gostar de cantar ao ar livre, a tarde não fazia prever de modo algum uma daquelas noites mornas tão frequentes no Algarve. A certa altura a Inês afastou-se e nós ficámos sozinhas a saborear o nosso chá numa pequena sala confortável e deserta. Conversámos então um pouco. Em dado momento perguntei-lhe: 
 – O que pensa, Amália, quando lá fora, diante duma plateia cosmopolita, é alvo de tão grandes e tão espontâneas ovações? Ela calou-se um momento e respondeu com um ar de profunda sinceridade: 
 – Penso que nada daquilo é comigo, que eu estou ali, sim, mas que não sou eu, que estou longe, muito longe, e que estou a cantar, a agradecer e a sorrir como se fosse outra pessoa, como se de qualquer modo estivesse a receber aplausos que não me eram destinados. A sinceridade da sua voz comoveu-me. Aliás, Amália surpreende-me sempre. Um dia, tendo cortado os cabelos, que usava então pelos ombros, não pude esconder a minha pena e exclamei: 
 – Oh, Amália, os seus cabelos! Que pena! Ela sorriu e perguntou-me: 
 – Estou horrível, não estou? – E acrescentou: – E agora primeiro que cresçam... Sabe como lhes chamo? «Crime e Castigo»! 
Disse há pouco que a Inês nos deixara, mas não disse porquê. Vendo a nossa preocupação por causa do tempo, sabem o que ela fez? Foi ter com um velho marinheiro e com o auxílio dele montou no estrado uma vela de traineira, que, logo que Amália começou a cantar, se ergueu como se o estrado fosse de facto um barco a fazer-se ao mar. Este efeito de cena era duma tal beleza que foi recebido com uma enorme ovação. Estavam centenas de pessoas presentes, sobretudo estrangeiros, e Amália, assim protegida do vento, pôde cantar, duma maneira fabulosa, sem prejuízo da sua prodigiosa garganta. Se a vida fosse uma estrada larga, uma recta do princípio ao fim, a memória poderia acompanhá-la sem solavancos, sem desvios, sem intermitências. A vida porém é um caminho sinuoso cheio de atalhos, de desvios, de encruzilhadas, onde a memória às vezes se perde e onde é preciso persegui-la até reencontrarmos o fio condutor. (...)"

Fernanda de Castro
Ao Fim da Memória, vol. II

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Testamento

Sem lápides, sem chumbo, sem jazigo;
caixão de tábuas, derradeira casa,
onde repousarei, frágil abrigo,
até me libertar num golpe de asa.
Então, quando estiver a sós comigo,
que ninguém chore porque o choro atrasa,
mas que alguém, se quiser, num gesto amigo,
ponha roseiras sobre a campa rasa.
Será medo o que sinto? Não é medo.
Serei, não serei digna do Segredo?
Ah, meu Deus, para lá das nebulosas,
Mereça ou não a expiação, a dor,
entrego-Te a minha alma sem temor.
O que resta, o que sobrar, é para as rosas.

Fernanda de Castro

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

sábado, 18 de outubro de 2014

Capa de Sarah Affonso

As Aventuras de Mariasinha, Vicente e companhia
Edição Casa do Livro (s.d)

Canção

"É viúva do escritor António Ferro. A sua poesia patenteia-se fremente, banhada da claridade do sol e álacre pela vida que nela estua. Noutras vezes, porém, a sua alma espreita, compadecida, os infortúnios humanos e deles recebe o tom da sua canção."

João Cabral do Nascimento 
sobre Fernanda de Castro em Líricas Portuguesas, Segunda série
via Antologia do esquecimento, de Henrique Manuel Bento Fialho.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Jardim Fernanda de Castro

"A autora de Cidade em Flor (1924) e Jardim (1928) dá apropriadamente o seu nome a um jardim de Lisboa, na Encosta do Restelo, desde a publicação do Edital de 30/07/1999 e cerca de 5 anos após o seu falecimento. (...)"

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sábado, 2 de agosto de 2014

Quando Ferro entrevista Hitler


"Começa metendo “eu” na reportagem (Chego a Munique…) e vai prosseguir com uma escrita viva e coloquial. Junta a isso o sentido de oportunidade do bom jornalista: pouco depois de o Partido Nazi ter começado a sua ascensão institucional (em setembro de 1930, com 107 deputados tornara-se o segundo maior partido no parlamento alemão, Reichstag, só ultrapassado pelos socialistas), o repórter internacional do DN António Ferro, vindo de Berlim, desce do wagon-lits na capital da Baviera. Vai “para ver Hitler, para falar a Hitler, para conhecer o herói do romance…”, em Munique, a cidade onde as fardas paramilitares das SA impõem já a ordem castanha. (...) Ao seu hotel vai ter um enviado do partido, um alemão enorme, chegado de bicicleta: um bávaro cordial, insinuante, duma instintiva amabilidade, uma daquelas canecas altas, acolhedoras, espumantes da Casa da Cerveja, da Hofbrauhaus.
Este homem, que Ferro julga ser um simples funcionário do partido, vai dar-lhe a má notícia de que Hitler não dá entrevistas a quem não fala alemão mas só o odiado francês… Hanfstaengl também se inquieta com a condecoração que o português traz ao peito, mas não, não é a Légion d’Honneur, é a Cruz de Cristo, portuguesa – tranquiliza Ferro, que, no entanto, a guarda no bolso. O jornalista insiste, mostra o seu livro Viagem à Volta das Ditaduras, entrevistas a Mussolini, ao espanhol Primo de Rivera, ao turco Atatürk… -, Ferro quer convencer com o seu gosto por homens fortes (e ainda não escrevera Salazar, o Homem e a Obra, que só seria publicado em 1933). Hanfstaengl morde o isco e pede-lhe para ele dedicar um exemplar a Hitler. (...)"

Ferreira Fernandes
DN, 2 de Agosto de 2014

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Uma obra social limada de asperezas

"Não é demais pôr em relevo a figura da criadora dos Parques Infantis, a grande poetisa Fernanda de Castro, que concebeu uma obra social limada de asperezas, que soube amparar as crianças com a mesma alma em flôr com que escreveu os seus versos. (...)"

Maria Archer
(1943)

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Festa redonda


A Fernanda de Castro
e António Ferro
à sua partida para Berna - esta lembrança
do seu velho camarada

Vitorino Nemésio

terça-feira, 24 de junho de 2014

Bruno e Sílvia

 - Tens medo? - perguntou Bruno.
Sílvia fechou os olhos e murmurou, à beira das lágrimas:
- Não.
- Queres?
Tinha chegado o momento. Que lhe dissera um dia o velho senhor? Ah, sim: «A vida é um jogo franco, ganha quem merece ganhar. E só merece ganhar quem se arrisca, quem fecha os olhos e mergulha.»
- Queres? - insistiu Bruno.
- Quero.
O resto foi rápido. Bruno ajudou Sílvia a entrar no barco, pegou nos remos, afastou-se da margem, remando para o sítio mais fundo, onde as flores dos golfões pareciam estrelas brancas a boiar.

Fernanda de Castro
Fontebela (1973)

Não sabes?

 - Não sabes que às vezes se fala por tédio, por tristeza, por solidão?

Fernanda de Castro
Fontebela (1973)

sábado, 21 de junho de 2014

Não sei se já reparaste

- Mais ou menos. Mas o que eu gosto é de te ouvir falar.
Não sei se já reparaste que normalmente falas muito pouco. Às vezes é difícil arrancar-te uma palavra.

- É estranho, não dou por isso. Deve ser porque não gosto de falar, gosto só de dizer.

Fernanda de Castro 
Tudo é princípio (póstumo)

Tudo é princípio

- Saudades, recordações?
- Não, tudo isso é dor e passado. Esperança.
- Esperança em quê?
- No futuro.
- E os que não têm futuro?
- Todos têm futuro. Este minuto exacto. Sofia, é presente, mas já pensou que o minuto seguinte já é futuro?
- E os que chegam ao fim, ao último minuto?
- Está a falar da morte?
- Sim, da morte.
- A morte, Sofia, é a maior esperança da vida. Não consigo explicar-lhe nada disto, mas é o que sinto.

Fernanda de Castro
Tudo é princípio (póstumo)

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O Anjo de sal



Poetas

Tive uma irmã gémea 
Sonhou com o céu. Chorou.
Nuvemzinha boémia.

Gullherme de Almeida
O anjo de sal (1951)



terça-feira, 17 de junho de 2014

Auto das oferendas


Agora, Adeus. Que Deus fique 
Sobre vós, como em Ourique.

António Corrêa d'OliveiraAuto das oferendas
composto para o cortejo "Festa do Trabalho" em Viana do Castelo.
1 de Maio de 1938

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Bruno

Mariana

Não me pergunta quem sou?

Bruno

Que importa um nome? Muito prazer.

Mariana

Igualmente. Mariana.

Bruno

Bruno

Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)

Pereiras

Luís Coutinho

Que importância é que isso tem? Recuso-me a ser escravo das horas, como aliás de tudo o que exclua a fantasia. E agora, desculpem, vou deixá-los, as pereiras estão em flor.

Teresa

As pereiras?

Fernanda de Castro
Os cães não mordem (Póstumo)