quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Rita Ferro sobre a avó Fernanda de Castro

"Foi a primeira mulher - entre três outras - a tirar a carta de condução em Portugal . Foi a primeira mulher a ganhar o prémio Ricardo Malheiros, da Academia de Ciências de Lisboa . Foi a primeira portuguesa a fundar um Teatro de Câmara. Foi a sócia número 68 da Associação Portuguesa de Escritores. Foi sócia número 1 da Sociedade Portuguesa de Autores. Foi Sócia de Honra do Círculo Eça de Queiroz . Foi autora de um livro de introdução à Botânica, ciência que sempre a fascinou, intitulado A Vida Maravilhosa das Plantas. Tinha uma das mais notáveis colecções de conchas e búzios, recolhidos por ela mesmo em África e na Ilha de Faro. Foi a mentora, fundadora e directora da Associação dos Parques Infantis . Como embaixatriz de Portugal em Berna e em Roma, são lembrados com saudade o seu requinte a receber, a sua paixão pela gastronomia e os seus apreciadíssimos dotes culinários. É autora de um livro de culinária intitulado Cem Receitas Sem Carne, sob o pseudónimo de Teresa Diniz, que atendia às dificuldades de abastecimento provocadas pela Guerra . Foi exímia executante de tapetes de Arraiolos . São conhecidos os seus bordados sobre seda e os seus quadros de flores e plantas naturais, que ela mesmo colhia, prensava e classificava . Foi co-proprietária com Mariana Avilez de um hotel de Cascais, o Solar D. Carlos . Foi fundadora e redactora da revista Bem Viver, que dirigiu durante os dois anos da sua publicação e funcionou como escola de gosto, defendendo o ambiente, a harmonia e o bem-estar em casa e na vida quotidiana. Organizou o I e II Festivais do Algarve, durante dois anos consecutivos, inaugurados no Castelo de Ofir, com um recital de poesia árabe e portuguesa, no qual tomaram parte dois príncipes marroquinos com os seus trajes de cerimónia . Organizou, em moldes inéditos, duas grandes festas populares no Jardim da Estrela, em Lisboa, durante a quadra dos santos populares, com enorme impacto junto do público. Participou na Semana de Arte Moderna, em S. Paulo Decorou os 40 primeiros apartamentos de Vilamoura, no Algarve . Publicou 14 livros de poesia, 5 romances (um deles adaptado a uma telenovela para a RTP), publicou 2 peças de teatro, 7 livros para crianças, 2 volumes de memórias, 1 livro de epístolas, 1 livro de introdução à Botânica, 1 livro de receitas, num total de 33 obras publicadas Traduziu 11 obras importantes . Editou 1 revista . Escreveu letras para cinema, canção e fado, argumentos para filmes e bailados . Editou 1 disco de canções infantis . Compôs música. Publicou centenas de artigos e crónicas, deu conferências e recitais no Continente e nas Ilhas, no Brasil, na Suiça, em Paris e em África. Os seus livros «Mariazinha em África» e novas «Aventuras de Mariazinha» fizeram as delícias de uma geração, mas depois foram considerados «colonialistas» . As suas Memórias, em dois volumes, foram best-sellers à epoca, e todos deveriam lê-las: é um testemunho precioso de um século que sofreu quatro guerras. Esteve acamada durante 13 anos, e recebia os amigos num quarto carregado de flores naturais e um piano, onde alguns músicos reconhecidos lhe deram a alegria de tocar para ela . Servia um chá às quintas-feiras, onde os amigos apareciam sem convite e se jogava Trivial Pursuit . Era competitiva: irritava-se quando não acertava. A Amália aparecia frequentemente. Escreveu 4 livros depois de adoecer, e ainda 1 romance de 400 páginas depois de cegar, ditando. Aos 92 anos, dois antes de morrer, enviou à TVI, então dirigida pelo Engº Roberto Carneiro, duas propostas suas para programas de TV. Detestava a política, mas foi amiga pessoal de Salazar e nunca hipotecou a sua honra, negando-o. Pagou, inteira e serena, o preço do esquecimento . Viu morrer o filho e duas netas sem verter uma lágrima - para que o seu desgosto não sobrecarregasse o nosso - e nem por uma vez a ouviram queixar-se. Durante a guerra, tanto ela como o meu avô arranjaram dezenas de passaportes para judeus foragidos, acolhendo alguns deles em casa. Tinha dois amigos íntimos: a Natália e o Ary. Em 74, cada um seguiu o seu caminho: o Ary seguiu para o PC e a Natália para o PPD. Durante muitos anos não a visitaram. Nunca os julgou. Um certo dia voltaram, desculpando-se, ao que ela respondeu «não tem importância, eu compreendo». Contrariaram a ordem natural das coisas partindo ambos antes dela. Sofreu pavorosamente não ter podido comparecer ao funeral de ambos, assim com ao de meu Pai. Lisboa tem um jardim com o seu nome."
Rita Ferro

6 comentários:

Maria João Brito de Sousa disse...

Caramba! Fernanda de Castro é uma daquelas mulheres que justificaram sobejamente a sua passagem pela vida!
Não há botão para seguir o blog... ou eu não dou com ele...
Abraço grande!

Gonçalo Ramos Ferreira disse...

O espírito de António e Fernanda vive no coração de muitos Portugueses, mesmo daqueles que ainda não o sabem! Ao deambular na semana passada pela antiga Travessa dos Caetanos, imaginei como seria o sorriso de Fernanda de Castro à sua janela, com todos os amigos em redor da sua sala. Pensei que ela conseguiria dar luz e alegria a uma rua hoje despida e vazia. Sem a ter conhecido pessoalmente, sinto saudades do seu sorriso e de tudo o que representa.

Anna Cecília Sobral disse...

Que mulher é essa? Para referir a Fernanda de Castro não é possível conjugar verbos no passado. Uma inspiração e impulso à produzir sempre!
Me sinto privilegiada em conhecer a sua obra.

antónio quadros ferro disse...

Muito obrigado Anna, não podia concordar mais consigo....

Um abraço

Fernanda Maria Rocha Mesquita disse...

Fantastico! Da me autorizacao que publique esta carta no meu espaco com a devida referencia a este lugar? se nao entenderei. muito obrigado por toda divulgacao sobre esta grande mulher... antes ser humano
um bom dia
fernanda

antónio quadros ferro disse...

claro!